Não quero mais ser Evangélico

Postado por Equipe Consciência e Fé

Por Ariovaldo Ramos

Mais um desabafo de alguém que ama a pureza e simplicidade do evangelho, e que por isso cansou de todo esse universo em-vão-gélico. Narrado por Ed René Kivitz.  Escute e tire suas próprias conclusões.

(Texto escrito) 

Ser evangélico, pelo menos no Brasil, não significa mais ser praticante e pregador do Evangelho (Boas Novas) de Jesus Cristo, mas, a condição de membro de um segmento do Cristianismo, com cada vez menor relacionamento histórico com a Reforma Protestante – o segmento mais complicado, controverso, dividido e contraditório do Cristianismo. O significado de ser pastor evangélico, então, é melhor nem falar, para não incorrer no risco de ser grosseiro.

Não quero mais ser evangélico! Quero voltar para Jesus Cristo, para a boa notícia que Ele é e ensinou. Voltemos a ser adoradores do Pai porque, segundo Jesus, são estes os que o Pai procura e, não, por mão de obra especializada ou por ‘profissionais da fé’. Voltemos à consciência de que o Caminho, a Verdade e a Vida é uma Pessoa e não um corpo de doutrinas e/ou tradições, nascidas da tentativa de dissecarmos Deus; de que, estar no caminho, conhecer a verdade e desfrutar a vida é relacionar-se intensamente com essa Pessoa: Jesus de Nazaré, o Cristo, o Filho do Deus vivo. Quero os dogmas que nascem desse encontro: uma leitura bíblica que nos faça ver Jesus Cristo e não uma leitura bibliólatra. Não quero a espiritualidade que se sustenta em prodígios, no mínimo discutíveis, e sim, a que se manifesta no caráter.

Chega dessa ‘diabose’! Voltemos à graça, à centralidade da cruz, onde tudo foi consumado. Voltemos à consciência de que fomos achados por Ele, que começou em cada filho Seu algo que vai completar: voltemos às orações e jejuns, não como fruto de obrigação ou moeda de troca, mas, como namoro apaixonado com o Ser amado da alma resgatada.
Voltemos ao amor, à convicção de que ser cristão é amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos: voltemos aos irmãos, não como membros de um sindicato, de um clube, ou de uma sociedade anônima, mas, como membros do corpo de Cristo. Quero relacionar-me com eles como as crianças relacionam-se com os que as alimentam – em profundo amor e senso de dependência: quero voltar a ser guardião de meu irmão e não seu juiz. Voltemos ao amor que agasalha no frio, assiste na dor, dessedenta na sede, alimenta na fome, que reparte, que não usa o pronome ‘meu’, mas, o pronome ‘nosso’.

Para que os títulos: ‘pastor’, ‘reverendo’, ‘bispo’, ‘apóstolo’, o que eles significam, se todos são sacerdotes? Quero voltar a ser leigo! Para que o clericalismo? Voltemos, ao sermos servos uns dos outros aos dons do corpo que correm soltos e dão o tom litúrgico da reunião dos santos; ao, ‘onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu lá estarei’ de Mateus 18.20. Que o culto seja do povo e não dos dirigentes – chega de show! Voltemos aos presbíteros e diáconos, não como títulos, mas, como função: os que, sob unção da igreja local, cuidam da ministração da Palavra, da vida de oração da comunidade e para que ninguém tenha necessidade, seja material, espiritual ou social. Chega de ministérios megalômanos onde o povo de Deus é mão de obra ou massa de manobra!

Para que os templos, o institucionalismo, o denominacionalismo? Voltemos às catacumbas, à igreja local. Por que o pulpitocentrismo? Voltemos ao ‘instruí-vos uns aos outros’ (Cl 3. 16).

Por que a pressão pelo crescimento? Jesus Cristo não nos ordenou a sermos uma Igreja que cresce, mas, uma Igreja que aparece: ‘Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras, e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus. ‘(Mt 5.16). Vamos anunciar com nossa vida, serviço e palavras ‘todo o Evangelho ao homem… a todos os homens’. Deixemos o crescimento para o Espírito Santo que ‘acrescenta dia a dia os que haverão de ser salvos’, sem adulterar a mensagem.

Fonte: Publicado em 23 de junho de 2003 no site da Rede Sepal, de autoria do Pastor Ariovaldo Ramos.
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Luciano Ferrari
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A PRÁTICA DO JEJUM – PARTE 2

TEXTO (MATEUS 6.16-18)

16. Quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os hipócritas; porque desfiguram o rosto com o fim de parecer aos homens que jejuam. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa. 17. Tu, porém, quando jejuardes, unge a cabeça e lava o rosto, 18. com o fim de não parecer aos homens que jejuas, e sim ao teu Pai, em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.
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· ELUCIDAÇÃO
Irmãos, o nosso trecho está inserido dentro de um contexto maior, que tem início no versículo primeiro de Mateus 6: “Guardai-vos de exercer a vossa justiça diante dos homens, com o fim de serdes vistos por eles; doutra sorte, não tereis galardão junto de vosso Pai celeste”. De acordo com Jesus, não podemos transformar a nossa piedade em um espetáculo para o deleite das outras pessoas. Não podemos exercer nossa piedade visando receber elogios dos homens em vez de Deus.[20]
As palavras de Jesus sobre o jejum aparecem como o terceiro exemplo da discrição exigida em nossa devoção pessoal. As pessoas dão muita atenção à questão da caridade e da oração, mas frequentemente negligenciam a questão do jejum. John Stott afirma que, “alguns de nós vivemos nossa vida cristã como se estes versículos tivessem sido arrancados de nossas Bíblias”.[21] Mas, Jesus apresenta três áreas nas quais os escribas e os fariseus tropeçavam: 1) como se deve dar esmolas (vv. 2-4); 2) como se deve orar (vv. 5-14); e 3) como se deve jejuar (vv. 16-18). Os fariseus davam esmolas tocando trombetas diante de si, propagandeando o quanto se importavam com os menos favorecidos, para que as pessoas observassem e pensassem sobre o quanto eles eram misericordiosos. Eles também oravam de pé nos cantos das praças e das sinagogas para serem vistos pelas demais pessoas como homens de orações. Ademais, eles, ao jejuarem, propositadamente desfiguravam os seus rostos para que todos vissem e percebessem que eles estavam jejuando. Ele adverte que Deus “odeia orgulho e ostentação na religião”.[22]
As três áreas apontadas por Jesus meus irmãos, representam três áreas ou três aspectos da nossa vida espiritual.[23] A primeira, é a da nossa relação com o nosso próximo, ou o bem que fazemos ao próximo. A segunda, a da oração, aponta para a nossa relação com Deus, ou o que fazemos com Deus. Por fim, a terceira, é a da disciplina pessoal na vida espiritual do indivíduo, ou seja, o que fazemos com nós mesmos.
Então, visto que o nosso Senhor achou importante falar sobre o jejum para os seus discípulos amados, é importante também que tiremos um pouco do nosso tempo para estudarmos esse assunto tão importante e tão esquecido em nossos dias. Contudo, antes de observarmos detalhadamente o ensino de Jesus em Mateus 6.16-18, precisamos compreender o jejum a partir do todo da revelação bíblica. Antes do “como” jejuar, vem o que é o jejum.
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III – O ENSINO NEGATIVO DE JESUS SOBRE O JEJUM – COMO NÃO PRATICÁ-LO (v. 16)
“Quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os hipócritas; porque desfiguram o rosto com o fim de parecer aos homens que jejuam. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa”.
Notem o que Jesus afirma logo no início do versículo 16: “Quando jejuardes…”. Jesus aqui assume que os seus discípulos jejuariam. Percebam que, Jesus não diz “se jejuardes”. Ele também não diz “vocês precisam jejuar”. Aqui Jesus “assumiu que jejum era uma coisa boa e que seria praticada pelos seus discípulos”.[37] Jesus tem o propósito, não de proibir o jejum, mas sim o de ensinar o modo correto de fazê-lo. Jesus mostra que há uma forma de fazer o jejum, e, ainda assim, não agradar a Deus.
Jesus continua dizendo: “não vos mostreis contristados como os hipócritas”. Aqui está a exortação acerca do que não fazer: imitar os hipócritas. O que os hipócritas faziam? Eles se mostravam contristados. Eles faziam questão de mostrar que estavam jejuando. “Hipócritas são as pessoas que praticam as disciplinas espirituais para serem vistos pelos homens”.[38] Essa é a recompensa que os hipócritas desejam: o reconhecimento, o louvor dos homens. Os fariseus, os líderes religiosos de Israel estavam infectados com esse desejo de reconhecimento. No versículo 1, Jesus afirmou que o “fim”, ou seja, o objetivo dos fariseus era o de serem vistos pelos homens! Jesus proferiu uma solene advertência contra os escribas: “Guardai-vos dos escribas, que gostam de andar com vestes talares e das saudações nas praças; e das primeiras cadeiras nas sinagogas e dos primeiros lugares nos banquetes; os quais devoram as casas das viúvas e, para o justificar, fazem longas orações; estes sofrerão juízo muito mais severo” (Marcos 12.38-40). Meus irmãos, quão intenso é o gosto pelo elogio dos homens! Nós, muitas vezes, nos aprontamos para isso “com vestes talares”, e nos exibimos, assumimos uma pose importante na igreja, desejando ocupar cargos e mais cargos com o fim de sermos vistos pelos homens, e até mesmo encompridamos nossas orações para apenas parecer que somos piedosos. Tudo isso nós somos propensos a fazer por causa do nosso apetite aparentemente insaciável pelos elogios dos homens!
A hipocrisia, segundo Jesus, estava em se mostrar contristado de forma proposital. Os fariseus desfiguravam os seus rostos, para parecer que jejuavam. Tudo era apenas fingimento! O verbo usado para “desfiguram” (avfani,zw), dá a ideia de que eles estavam bem, estavam fortes, mas ativamente fingiam que estavam fracos e abatidos por causa da falta de alimento. Irmãos, a falta de alimento por si só já é capaz de desfigurar o rosto. Acontece que nos dias em que eles jejuavam, os fariseus nem sequer lavavam o rosto nem ungiam a cabeça com óleo perfumado. Eles faziam questão de demonstrar que estavam jejuando. “Nestes dias, eles apareciam nas ruas, ao passo que deveriam permanecer em seus aposentos; e demonstravam uma aparência abatida, um semblante melancólico, um passo lento e solene”.[39] O objetivo deles era que as pessoas os vissem e os admirassem.
Jesus os chama de hipócritas porque eles apenas aparentavam estar jejuando por causa da verdadeira piedade. Apenas exteriormente eles jejuavam por amor a Deus, por desejo de comunhão com Ele, por mortificação do pecado. Eles só jejuavam para serem admirados. Por isso eles eram hipócritas!
Por fim, Jesus afirma que os hipócritas “já receberam a recompensa”. Que recompensa? A que tanto desejavam: o aplauso dos homens, os holofotes da fama eclesiástica! A hipocrisia é extremamente eficaz! Se a única coisa que você deseja é a admiração das pessoas, fique sabendo que você a conseguirá. No entanto, é a única coisa que você vai receber. Aqueles que desejam apenas o aplauso dos homens não farão parte do Reino de Deus!
IV – O ENSINO POSITIVO DE JESUS SOBRE O JEJUM – COMO PRATICÁ-LO (vv. 17,18)
“Tu, porém, quando jejuardes, unge a cabeça e lava o rosto, com o fim de não parecer aos homens que jejuas, e sim ao teu Pai, em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará”.
Jesus começa com a afirmação de que os seus discípulos não devem viver de uma forma hipócrita: “Tu, porém…”. Devemos agir diferentemente dos fariseus e de pessoas que jejuam para parecerem mais espirituais. O ponto delineado por Jesus aqui, é que quando jejuarmos devemos evitar todo e qualquer tipo de propaganda hipócrita no que concerne ao nosso jejum. Devemos mantê-lo em oculto.
Jesus ordena: “unge a cabeça e lava o rosto”. Isso tem um propósito muito simples: a discrição. No jejum devemos afligir a nossa alma e não o nosso corpo. É certo que o corpo também sofre com o jejum, mas como diz o puritano Matthew Henry, “deixe o corpo sofrer, mas não deixe transparecer”.[40] Devemos nos preocupar com o nosso interior e não com o nosso exterior. Devemos cuidar para que a nossa aparência seja comum, a mesma dos dias em que não estamos jejuando.
O nosso jejum deve ser apenas para Deus, não para os homens. O erro mais grave nisso tudo é a preocupação com a opinião das outras pessoas. Muitas vezes tememos tanto parecer insignificantes aos olhos das outras pessoas, que nem sequer pensamos no que Deus pensa a nosso respeito e exige de nó. A tua preocupação quando jejuar deve ser se está agradando a Deus ou não; se Deus está satisfeito com a sua devoção ou não; se a maneira como você está jejuando é aceitável diante de Deus ou não. “Que a nossa preocupação seja somente com Deus e sobre como podemos agradá-Lo em tudo”.[41]
No versículo 18, Jesus conclui: “e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará”. Isso só confirma que o jejum deve ter a clara intenção de ser visto por Deus. Então, quando jejuar, “faça-o na direção de Deus, que vê quando outros não o veem”.[42] John Stott faz uma afirmação maravilhosa sobre Deus estar nos observando em secreto: “Como Jesus observava as pessoas que colocavam suas ofertas no tesouro do templo, assim Deus nos observa quando ofertamos; quando oramos e jejuamos em secreto, ele está ali, no lugar secreto”.[43]
Jesus está testando a realidade de Deus em nossas vidas. Será que nós realmente temos uma fome por Deus mesmo, ou uma fome por admiração humana? Jesus promete que nosso Pai, que vê em secreto, recompensará o jejum feito da maneira que o agrada. Devemos estar atentos ao fato, irmãos, de que, não devemos jejuar buscando alguma recompensa.[44] Nosso intento deve ser o de agradar a Deus, expressar o nosso amor, o nosso desejo e a nossa fome pelo Senhor, o nosso desejo por coisas espirituais mais elevadas do que os banquetes que desfrutamos no cotidiano. Devemos jejuar buscando demonstrar ao nosso Noivo que desejamos o seu retorno. O que acontece é que a bondade do nosso Pai, que nos vê em secreto é tamanha, que ele, bondosamente nos recompensa por termos almejado apenas a ele.
Igualmente, não devemos imaginar que a recompensa que o Pai nos dará é algum tipo de poder celestial, místico, ou alguma bênção material. Como afirmado no início, o jejum não é uma “varinha de condão”, algo mágico para atender nossos caprichos. A recompensa que Deus tem em mente, antes de qualquer coisa, é ele mesmo! Nós apreendemos isso da oração do Pai Nosso. Ali Jesus nos diz que os nossos maiores anseios devem ser: 1) que o nome de Deus seja santificado ou honrado; 2) que o Reino de Deus venha; e 3) que a sua vontade seja feita na terra como é feita no céu. Desse modo, devemos jejuar movidos pelo anseio “de que o nome de Deus seja conhecido, estimado e honrado, movidos pelo anseio de que seu reino seja estendido e depois consumado na história, movidos pelo anseio de que sua vontade seja feita em todas as partes com a mesma devoção e energia que os anjos infatigáveis fazem sem cessar no céu para todo o sempre”.[45]
A recompensa maior do jejum praticado pelo cristão será “um banquete eterno”.[46] Assim como a recompensa dos hipócritas será dada apenas terra, a recompensa dos verdadeiros discípulos de Jesus receberão uma maravilhosa recompensa no céu.[47]
V – AS CONFISSÕES REFORMADAS E O JEJUM
Já vimos anteriormente o ensinamento da Confissão de Fé de Westminster a respeito do jejum comunitário como estando ligado a assuntos de grande importância, como por exemplo, a escolha de nossos líderes. Creio que seja útil observarmos novamente o ensino confessional:
A leitura das Escrituras, com santo e piedoso temor; a sã pregação e o consciencioso ouvir da Palavra, em obediência a Deus, com entendimento, fé e reverência; o cântico de salmos com graça no coração; e bem assim a devida administração e o digno recebimento dos sacramentos instituídos por Cristo – são todos partes do culto religioso ordinário oferecido a Deus, além dos juramentos e votos, jejuns solenes e ações de graças em ocasiões especiais, que devem, em seus diversos tempos e estações, ser usados de uma forma santa e religiosa.[48]
Além da Confissão de Westminster, a Segunda Confissão Helvética (1566), no Capítulo XXIV.4 diz o seguinte a respeito do jejum:
Ora, quanto mais seriamente a igreja de Cristo condena a gula, a embriaguez e toda a espécie de lascívia e intemperança, tanto mais e com insistência, recomenda-nos o jejum cristão. Pois, jejuar nada mais é do que a abstinência e a moderação dos piedosos e uma disciplina, um cuidado e castigo da nossa carne, exercitados segundo a necessidade do momento, pelos quais nos humilhamos diante de Deus, privando a nossa carne do seu alimento, de modo que ela possa de modo mais espontâneo e fácil obedecer ao Espírito. Portanto, aqueles que não dão atenção a essas coisas não jejuam, mas imaginam que o fazem se abarrotam o estômago uma vez por dia e a certa hora ou em horário prescrito abstêm-se de certos alimentos, pensando que, pelo fato de terem praticado essa obra agradam a Deus e estão fazendo algo de bom. O jejum vem a ser um auxílio para as orações dos santos e para todas as virtudes. Porém, como se vê nos livros dos profetas, o jejum dos judeus, que se abstinham de alimento, não porém da iniquidade, não agradava a Deus.[49]
Percebam, irmãos, jejuar, de acordo com esta confissão, “é privar algo ao corpo com o objetivo de servir ao Espírito”.[50] O jejum cristão se apresenta como oposição a uma vida dissoluta marcada por excessos, como a embriaguez e a glutonaria. Depois de apresentar a definição do jejum cristão, a Confissão Helvética faz uma distinção entre o jejum privado e o público:
Há jejum público e pessoal. Nos tempos antigos celebravam-se jejuns públicos, em tempos de calamidade ou em situações difíceis da igreja. Com a total abstinência de alimento até o anoitecer, todo o tempo era dedicado às santas orações, ao culto a Deus e ao arrependimento. Eles diferiam pouco do luto, havendo frequente menção do mesmo nos profetas, especialmente no segundo capítulo de Joel. Esse tipo de jejum deve ser observado ainda hoje, sempre que a igreja se encontre em situação difícil. Os jejuns particulares podem ser praticados por qualquer um de nós, quando se sente afastado do Espírito. Pois, dessa maneira, priva-se a carne do que a alimenta e fortifica.[51]
Por fim, irmãos, quero apenas citar a passagem da confissão que diz como se dá o verdadeiro jejum cristão:
Todo jejum deve partir de um espírito livre, espontâneo e realmente humilde, e não simulado, só para conquistar o aplauso ou favor dos homens, e muito menos para que por meio dele pretenda o homem ser merecedor de justiça. Porém, que cada um jejue para esse fim, que ele prive a carne do que a alimentaria, para que possa servir a Deus de modo mais fervoroso.[52]
Creio que também seja pertinente mencionar, amados irmãos, que o nosso Catecismo Maior de Westminster, outro dos nossos símbolos de fé, na exposição do Segundo Mandamento afirma que, dentre os deveres exigidos no mandamento se encontra o “jejum religioso”.[53] Comentando esta resposta do Catecismo, o Pr. Johannes Geerhardus Vos afirma que, “o jejum religioso […] [é] para uso ocasional, isto é não deve ser realizado a intervalos de tempo definidos e regulares, mas quando alguma ocasião especial exigir”.[54]
· CONCLUSÃO
Gostaria de concluir o nosso estudo a respeito do jejum, meus amados e queridos irmãos, extraindo algumas lições práticas acerca do jejum cristão.
Em primeiro lugar, jamais esqueçamos que o jejum é nada mais nada menos do que um coração faminto por Deus. Quando jejuamos estamos expressando a saudade existente em nossos corações do nosso Noivo celestial; estamos demonstrando o nosso intenso e real desejo da sua volta. Porém, quando desprezamos o jejum, acabamos, sem querer, dando a entender que não sentimos falta dele e que não ansiamos por sua volta. Não podemos esperar que o mundo deseje a Cristo se nós, que somos o seu povo, não demonstramos nenhum interesse por ele.
Em segundo lugar, tenhamos cuidado para não cairmos nos erros dos escribas fariseus, os quais foram chamados de hipócritas. Não devemos jejuar externamente como tendo fome por Deus, mas internamente tendo fome pelos aplausos dos homens. Não é pecado ser visto jejuando. Pecado é jejuar para ser visto. Também tenhamos cuidado para não jejuarmos para conseguir algo pessoal, algum prazer material. Não façamos do jejum um dispositivo para manipularmos a Deus.
Em terceiro lugar, queridos irmãos, tenhamos a consciência de que, Deus não recompensa o jejum pelo jejum em si: “Deus recompensa o jejum porque o jejum expressa o clamor do coração de que nada na terra pode satisfazer a nossa alma além de Deus. deus deve recompensar esse clamor porque ele é mais glorificado em nós quando estamos mais satisfeitos nele”[55], afirmou John Piper.
Quarto, quando instituirmos dias de jejum e oração públicos, lembremos a grandeza dos nossos pecados e a nossa miséria, lembrando-nos da necessidade de verdadeiro arrependimento e de buscar ao Senhor.[56]
Quinto, quando instituirmos dias de jejum e oração, apresentemos ao Senhor, de forma pública e coletiva, as necessidades de nossa igreja. Dediquemo-nos à oração pelo bem espiritual da igreja e pelo que acontece fora dela. Em relação ao bem espiritual, supliquemos pelas necessidades particulares da igreja, pelos instáveis em nosso meio, pelos casados, por nossas crianças, adolescentes e jovens, por uma vida piedosa, devemos suplicar para que a pregação venha sobre nós com poder. Externamente precisamos suplicar por paixão ao testemunhar de Cristo, que o evangelho produza muito fruto por meio de nós, e que vejamos nossa igreja crescendo ano após ano.[57]
Que o Senhor nos abençoe!
Rev. Alan Rennê Alexandrino Lima


[20] Gordon Lyons, Expository Notes Excerpt The Sermon on the Mount: The Gospel of Matthew Chapters 5-7, (2008), 70. Minha tradução. Extraído do site http://www.1-word.com.
[21] John Stott, Contracultura Cristã: A Mensagem do Sermão do Monte, (São Paulo: ABU, 1981), 63. Edição eletrônica.
[22] Gordon Lyons, Expository Notes Excerpt The Sermon on the Mount: The Gospel of Matthew Chapters 5-7, 47.
[23] D. Martyn Lloyd-Jones, Estudos no Sermão do Monte, 321.

[37] John Piper, Fome por Deus, 77.
[38] Ibid, 78.
[39] Matthew Henry, Comentário Bíblico Novo Testamento: Mateus a João, (Rio de Janeiro: CPAD, 2008), 70.
[40] Ibid.
[41] D. Martyn Lloyd-Jones, Estudos no Sermão do Monte, 330.
[42] John Piper, Fome por Deus, 82.
[43] John Stott, Contracultura Cristã: A Mensagem do Sermão do Monte, 66.
[44] Discordo da posição assumida por John Piper, quando ele afirma que “é bom e correto querer e buscar a recompensa de Deus no jejum. Jesus não no-la ofereceria se fosse inadequado almejá-la”. Cf. John Piper, Fome por Deus, 84.
[45] John Piper, Fome por Deus, 87.
[46] Matthew Henry, Comentário Bíblico Novo Testamento: Mateus a João, 70.
[47] Gordon Lyons, Expository Notes Excerpt The Sermon on the Mount: The Gospel of Matthew Chapters 5-7, 56.
[48] A. A. Hodge, Confissão de Fé Westminster Comentada por A. A. Hodge, (São Paulo: Os Puritanos, 1999), 377.
[49] Joel R. Beeke e Sinclair B. Ferguson (Orgs.). Harmonia das Confissões Reformadas. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. pp. 171-172.
[50] Daniel R. Hyde. Dias de Jejum e Oração na Tradição Reformada. São Paulo: Os Puritanos, 2012. p. 3.
[51] Joel R. Beeke e Sinclair B. Ferguson (Orgs.). Harmonia das Confissões Reformadas. p. 172.
[52] Ibid.
[53] O CATECISMO MAIOR DE WESTMINSTER. Pergunta 108. In: Símbolos de Fé. São Paulo: Cultura Cristã, 2005. pp. 164-165.
[54] Johannes Geerhardus Vos. Catecismo Maior de Westminster Comentado. São Paulo: Os Puritanos, 2007. p. 336.
[55] John Piper, Fome por Deus, 193.
[56] Daniel R. Hyde. Dias de Jejum e Oração na Tradição Reformada. p. 8.
[57] Ibid.
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Luciano Ferrari
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A PRÁTICA DO JEJUM – PARTE 1

Estudo ministrado na Igreja Presbiteriana de Tucuruí, em 10 de Agosto de 2012


· TEXTO (MATEUS 6.16-18)
16. Quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os hipócritas; porque desfiguram o rosto com o fim de parecer aos homens que jejuam. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa. 17. Tu, porém, quando jejuardes, unge a cabeça e lava o rosto, 18. com o fim de não parecer aos homens que jejuas, e sim ao teu Pai, em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.
· INTRODUÇÃO
Meus amados irmãos, quando nos propomos a estudar um assunto como o jejum, devemos nos precaver contra inúmeros mal-entendidos. Especificamente, existem dois extremos quanto ao jejum. De um lado, estão aqueles que afirmam que o jejum é uma obrigação para o crente em nossos dias. Afirma-se que, “crente que não jejua não é consagrado, não recebe o batismo com o Espírito Santo” e outras coisas mais. Nessa fileira estão os nossos irmãos pentecostais e carismáticos. Interessantemente, eles estão aliados ao catolicismo romano, que enxerga o jejum como algo imprescindível e obrigatório para o cristão. Por exemplo, no catolicismo, o jejum é algo ordenado como possuindo várias funções: 1) como forma de preparação para a pessoa receber a comunhão: “A fim de se prepararem convenientemente para receber esse sacramento, os fiéis observarão o jejum prescrito em sua Igreja” (§1387)[i]; 2) como forma do sacramento da penitência (§1434,1438)[ii]; e 3) como mandamento expresso, possuindo caráter obrigatório: “O quarto mandamento (‘Jejuar e abster-se de carne, conforme manda a Santa Mãe Igreja’) determina os tempos de ascese e penitência que nos preparam para as festas litúrgicas; contribuem para nos fazer adquirir o domínio sobre nossos instintos e a liberdade de coração” (§2043).[iii] Eu creio que foi exatamente contra esse tipo de postura[iv] que o apóstolo Paulo se pronunciou em 1 Timóteo 4.1-3: “Ora, o Espírito afirma expressamente que, nos últimos tempos, alguns apostatarão da fé, por obedecerem a espíritos enganadores e a ensinos de demônios, pela hipocrisia dos que falam mentiras e que têm cauterizada a própria consciência, que proíbem o casamento e exigem abstinência de alimentos que Deus criou para serem recebidos, com ações de graças, pelos fiéis e por quantos conhecem plenamente a verdade”.
Um agravante entre muitos evangélicos, é que eles acabam tratando o jejum como uma espécie de “varinha de condão”, uma espécie de poder mágico[v], uma moeda de troca para barganhar com Deus favores pessoais. Por exemplo, uma pessoa que jejua porque deseja receber uma promoção no emprego, passar em um concurso ou em um vestibular. Muitos disfarçam o uso equivocado do jejum sob o rótulo “resposta de oração”. A exortação é a seguinte: “Se você quer uma bênção, então jejue!”. Meus irmãos, isso é perigoso, pois “no momento em que começarmos a dizer: ‘Porquanto faço isto, obtenho aquilo’, isso significará que teremos começado a controlar a bênção divina. Isso é um insulto a Deus, violando a grande doutrina de Sua soberania final”.[vi] Isso está errado, pois a pessoa acha que a eficácia está no jejum! “Quando jejuamos, não devemos crer no jejum, e sim em Deus”.[vii] Precisamos ter muita cautela com aqueles que dizem que o jejum é algo obrigatório para o discípulo de Jesus Cristo ou que o tratam como um ritual mágico.
O outro extremo fica por conta da maioria dos protestantes que, negligenciam quase que inteiramente o jejum. Existem algumas razões para tal negligência. Em reação ao catolicismo e ao pentecostalismo, os protestantes acabam negligenciando a prática do jejum. Pensam que, porque o jejum não é expressamente ordenado nas Sagradas Escrituras, então, não se deve jejuar de forma alguma. Martyn Lloyd-Jones afirma que, “tendemos a cair no extremo oposto, deixando inteiramente de lado o jejum, em nossas considerações e em nossa prática diária”.[viii] Outra razão para a atual negligência do jejum é o fato da grande indiferença que as pessoas, mesmo os evangélicos têm para com Deus e os assuntos espirituais. Porque as pessoas têm Deus como algo insignificante, como um acessório para suas vidas, tudo aquilo que está associado a Ele, bem como com o cultivo de uma vida piedosa perde a sua importância diante das pessoas. Um homem chamado Edward Farrell afirmou o seguinte sobre isso: “Quase em toda parte e em todos os tempos, o jejum sempre ocupou um lugar de grande destaque, visto que ele se encontra estreitamente relacionado com o profundo senso religioso. Talvez isso explique a negligência do jejum em nosso tempo. Quando o significado de Deus diminui, o jejum desaparece”.[ix] Um pastor chamado Richard Foster afirmou que em um período de quase cem anos nem mesmo um único livro sobre jejum foi escrito.[x]
Há ainda uma terceira razão para a atual negligência em relação ao jejum. A nossa superexposição à ideia de que temos necessidade de várias refeições durante o dia. Foster fala sobre esse problema:
A propaganda com a qual somos alimentados continuamente convence-nos de que, se não tivermos três refeições fartas todos os dias, com diversos petiscos nos intervalos, ficaremos à beira da inanição. Somando-se a isso a crença popular de que é uma virtude satisfazer cada um dos apetites humanos, o jejum tornou-se obsoleto.[xi]
Contrariamente a tudo isso, queridos irmãos, a Bíblia apresenta o jejum como algo benéfico e também como algo válido para os cristãos dos dias de hoje. Faríamos bem em examinar o que ela ensina sobre essa disciplina maravilhosa. A Bíblia apresenta uma longa lista de personagens que praticaram o jejum: Moisés, Davi, Elias, Ester, Daniel, a profetisa Ana (Lucas 2.36,37), João Batista, Paulo, Jesus[xii] e os cristãos da igreja primitiva. Igualmente, muitos dos cristãos notáveis da história da Igreja jejuavam e davam testemunho de seu valor. Entre eles, estão Agostinho, bispo de Hipona[xiii], Martinho Lutero[xiv], João Calvino[xv], John Knox, John Wesley[xvi], Jonathan Edwards[xvii], David Brainerd[xviii], Charles Spurgeon[xix] e Ashbel Green Simonton.

· EXPOSIÇÃO
I – DEFINIÇÃO DE JEJUM
Muitas vezes, o jejum é definido meramente como abstenção de comida, ou de comida e bebida, por um período específico de tempo. “No jejum, nós nos abstemos de alimentos e, não raro, também de líquidos”.[xxiv] Richard Foster define o jejum como “abstenção de comida por motivos espirituais”.[xxv]
Acontece que jejum não diz respeito apenas a comida e a bebida. A questão não é o alimento em si. De acordo com John Piper, “a questão engloba qualquer coisa e todas as coisas que poderiam ser um substituto para Deus”.[xxvi] Lloyd-Jones diz que o jejum “não deve confinar-se à questão de alimentos sólidos e líquidos; pelo contrário, o jejum, na realidade, deveria incluir a abstinência de qualquer coisa, legítima em si mesma, tendo-se em vista algum propósito espiritual especial”.[xxvii] Isso significa, meus amados irmãos, que mesmo coisas boas, muitas vezes podem servir como obstáculo para o cultivo de uma intimidade maior com o Senhor; podem acabar ocupando o lugar de Deus.
O jejum envolve também abstenção programada de coisas como sexo entre pessoas casadas (1 Coríntios 7.5). Muitos comentaristas afirmam que a disposição de Abraão em sacrificar o seu filho Isaque se configura como uma espécie de jejum, pois Abraão “preferiu a Deus à vida de seu filho”.[xxviii] Com isso em mente, podemos ter a convicção de que, jejum não é o confisco do mal, mas sim o confisco daquilo que é bom, o confisco do bem.
O nosso foco está, especificamente, no jejum como abstenção de comida e, em alguns casos, de bebida, durante um determinado período. No entanto, extrairemos alguns princípios úteis para toda e qualquer abstenção que desejarmos fazer por amor a Deus.
II – O ENSINO BÍBLICO SOBRE O JEJUM
2.1. No Antigo Testamento
2.1.1. A Psicologia do jejum
Algo interessante nas páginas do Antigo Testamento é a psicologia do jejum, isto é, as emoções que o acompanhavam. Por exemplo, alguns casos são apresentados em que o jejum foi praticado não como expressão de adoração a Deus, mas motivado por sentimentos e emoções violentas, como inveja, ira e aborrecimento: “E assim o fazia ele de ano em ano; e, todas as vezes que Ana subia à Casa do SENHOR, a outra a irritava; pelo que chorava e não comia” (1 Samuel 1.7); “Pelo que Jônatas, todo encolerizado, se levantou da mesa e, neste segundo dia da Festa da Lua Nova, não comeu pão, pois ficara muito sentido por causa de Davi, a quem seu pai havia ultrajado” (1 Samuel 20.34); “Então, Acabe veio desgostoso e indignado para sua casa, por causa da palavra que Nabote, o jezreelita, lhe falara, quando disse: Não te darei a herança de meus pais. E deitou-se na sua cama, voltou o rosto e não comeu pão” (1 Reis 21.4). No entanto, meus irmãos, esse tipo de abstinência de comida não tem nada de religioso.
Frequentemente, o jejum aparece nas Escrituras como uma expressão de aflição espiritual, como se a pessoa que o pratica quisesse dizer á deidade: “‘Eu sou penitente; eu não sou superior e poderoso. Você não precisa afligir-me mais’”.[xxix] O sentimento do que jejua é como um apelo à piedade da deidade. Davi é representativo aqui: “Respondeu ele: Vivendo ainda a criança, jejuei e chorei, porque dizia: Quem sabe se o SENHOR se compadecerá de mim, e continuará viva a criança?” (2 Samuel 12.22).
2.1.2. As ocasiões e condições do jejum
É preciso agora, queridos irmãos, compreendermos as ocasiões em que o jejum era praticado no Antigo Testamento. O jejum foi ordenado por Deus para ser praticado obrigatoriamente uma vez por ano. Isso deveria ocorrer no Dia da Expiação: “Isso vos será por estatuto perpétuo: no sétimo mês, aos dez dias do mês, afligireis a vossa alma e nenhuma obra fareis, nem o natural nem o estrangeiro que peregrina entre vós. Porque, naquele dia, se fará expiação por vós, para purificar-vos; e sereis purificados de todos os vossos pecados perante o SENHOR” (Levítico 16.29,30; cf. 23.27-32; Números 29.7; Jeremias 36.6). Apesar nem o verbo nem o substantivo para jejum e abstinência ocorram aqui, alguém “afligir a alma” significa abster-se de alimento. Vejam como o salmista Davi disse que afligia a sua alma: “Quanto a mim, porém, estando eles enfermos, as minhas vestes eram pano de saco; eu afligia a minha alma com jejum e em oração me reclinava sobre o peito” (Salmo 35.13). Vejam também a pergunta dos israelitas descrentes acerca do efeito do jejum praticado por eles: “Por que jejuamos nós, e tu não atentas para isso? Por que afligimos a nossa alma, e tu não o levas em conta?” (Isaías 58.3a; cf. v. 5). Deve ser entendido que a pergunta deles não possuía a humildade existente naqueles que desejam realmente aprender. Como afirma Raymond C. Ortlund Jr., “era apenas uma forma de descarregar sua frustração com Deus. Eles achavam que Deus estava sendo injusto”.[xxx] De qualquer forma, percebam como “afligir a alma” sempre está relacionado com a prática do jejum.
Aqui o jejum é praticado como parte de uma grande contrição e tristeza por causa do pecado cometido contra o Senhor. O grande problema é que essa prática deveria ser espontânea, e não algo mecânico. Os judeus perverteram o propósito de Deus quanto ao jejum praticado no Dia da Expiação. Os israelitas começaram a jejuar meramente para conseguir obter o favor de Deus quanto a interesses pessoais: “… Eis que, no dia em que jejuais, cuidais dos vossos próprios interesses e exigis que se faça todo o vosso trabalho. Eis que jejuais para contendas e rixas e para ferirdes com punho iníquo; jejuando assim como hoje, não se fará ouvir a vossa voz no alto” (Isaías 58.3b,4). Por exemplo, na época de Jesus, os fariseus jejuavam duas vezes por semana (segundas e quintas-feiras). E eles faziam isso mecanicamente. A sua intenção era fazer mais do que a Lei mandava, para ver se conseguiam ter justiça própria de sobra. Entretanto, Jesus contou uma parábola sobre dois homens: “Um disse: ‘eu jejuo duas vezes por semana’. O outro disse: ‘Ó Deus, sê propício a mim, pecador’. Somente um desceu para sua casa justificado (Lucas 18.12-14)”.[xxxi] Os fariseus jejuavam não para afligirem suas almas por causa dos seus pecados, mas apenas para serem vistos pelos homens.
Nesse contexto de confissão de pecados, o jejum deveria funcionar apenas como um sinal visível de uma realidade invisível; um sinal exterior de algo que acontecia no interior do jejuador. Isso fica claro no livro do profeta Joel: “Ainda assim, agora mesmo, diz o SENHOR: Convertei-vos a mim de todo o vosso coração; e isso com jejuns. Com choro e com pranto. Rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes, e convertei-vos ao SENHOR, vosso Deus, porque ele é misericordioso, e compassivo, e tardio em irar-se, e grande em benignidade, e se arrepende do mal” (Joel 2.12,13).
Extraordinariamente, o jejum também era praticado em tempos de profunda aflição. Algumas vezes esse jejum era público, outras vezes era privado. As ocasiões eram as seguintes: 1) Guerra ou ameaça de guerra (Juízes 20.26; 1 Samuel 7.6); 2) Doenças (2 Samuel 12.16ss; Salmo 35.13); 3) Luto (1 Samuel 31.13; 2 Samuel 1.12); e 4) Perigo iminente (Esdras 8.21; Ester 4.3,16).
Acrescenta-se a isso, o fato de que, o jejum sempre era acompanhado de oração. Nunca ninguém jejuava sem orar durante o período em que se abstinha dos alimentos.
2.2. No Novo Testamento
2.2.1. A prática do jejum no Novo Testamento
Quando voltamos os nossos olhos para o que o Novo Testamento afirma sobre a prática do jejum, a única diferença que podemos encontrar entre ele e o Antigo Testamento, é que no Novo nós não encontramos nenhum mandamento específico para dias de jejum. Não existe nenhuma promulgação de dias de jejum no Novo Testamento.
Isso quer dizer, então, que, a partir do Novo Testamento o jejum deixa de ser algo válido? De maneira nenhuma! O Novo Testamento toma o jejum como algo praticado sempre pelos discípulos de Jesus Cristo. Nós podemos encontrar vários exemplos de pessoas jejuando no Novo Testamento: 1) Jesus: “A seguir, foi Jesus levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo. E, depois de jejuar quarenta dias e quarenta noites, teve fome” (Mateus 4.1,2); 2) Paulo[xxxii] e Barnabé: “E, promovendo-lhes, em cada igreja, a eleição de presbíteros, depois de orar com jejuns, os encomendaram ao Senhor em quem haviam crido” (Atos 14.23); 3) a Igreja reunida: Havia na igreja de Antioquia profetas e mestres: Barnabé, Simeão, por sobrenome Níger, Lúcio de Cirene, Manaém, colaço de Herodes, o tetrarca, e Saulo. E, servindo eles ao Senhor e jejuando, disse o Espírito Santo: Separai-me, agora, Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho chamado. Então, jejuando, e orando, e impondo sobre eles as mãos, os despediram (Atos 13.1-3); 4) a profetisa Ana: “… Esta não deixava o templo, mas adorava noite e dia em jejuns e orações” (Lucas 2.37).
Contudo, as palavras mais importante a respeito da continuidade do jejum para os dias posteriores ao Novo Testamento, foram pronunciadas pelo próprio Senhor Jesus Cristo, em Mateus 9.14,15: “Vieram, depois, os discípulos de João e lhe perguntaram: Por que jejuamos nós, e os fariseus muitas vezes, e teus discípulos não jejuam? Respondeu-lhes Jesus: Podem, acaso, estar tristes os convidados para o casamento, enquanto o noivo está com eles? Dias virão, contudo, em que lhes será tirado o noivo, e nesses dias hão de jejuar”. Estas palavras de Jesus sobre o jejum são extraordinárias. Elas deixam claro que o jejum é algo esperado dos discípulos de Cristo nos dias de hoje, após a sua ascensão aos céus. Richard Foster afirma que, “talvez essa seja a afirmação mais importante feita no Novo Testamento sobre ser ou não o jejum um dever para os cristãos de hoje”.[xxxiii]
2.2.2. Os usos do jejum no Novo Testamento
Na nova administração do Pacto três usos do jejum recebem destaque: 1) para a piedade pessoal (Mateus 6.16-18); 2) para a eleição, ordenação e instalação da liderança da Igreja (Atos 14.23); e 3) para a ardente expectativa da volta de Cristo (Mateus 9.14,15).
Creio que este último seja o ponto mais importante do ensino do jejum no Novo Testamento. John Piper define o jejum como “uma expressão física do desejo ardente do coração pela volta de Jesus […] Jesus relaciona o jejum cristão com o nosso anelo pelo retorno do Noivo”.[xxxiv] A Igreja é como uma noiva que, ao sentir grandes saudades do seu noivo, deixa até de comer, entregando-se, assim, à saudade e ao desejo. Esse deve ser o nosso maior motivador para nos aplicarmos ao jejum privado. Jesus assume que o jejum está intimamente relacionado com o desejo que os seus discípulos trazem em seu coração acerca da sua volta. Então, nós temos um indexador do nosso desejo pelo retorno do nosso Noivo. O jejum é uma constante em nossas vidas? Se sim, isso significa que o nosso coração tem uma ardente saudade do nosso Noivo. Por outro lado, se não damos o mínimo valor para a prática do jejum, isso, tristemente, indica que o nosso coração não está abrasado de saudades do nosso Noivo, o Senhor Jesus Cristo. Mais uma vez, a afirmação de John Piper chega a ser dolorosa: “A quase universal ausência de jejum pela volta do Senhor é uma testemunha de nossa satisfação com a presença do mundo e a ausência do Senhor. Isso não deveria ser assim”.[xxxv] O significado do jejum é um coração faminto por Deus!
A prática do jejum coletivo na Igreja neotestamentária diz respeito a assuntos de grande importância, como a escolha de sua liderança. Isso se depreende da passagem de Atos 14.23. É necessário proclamar dias de jejum solene quando o futuro da Igreja estiver em jogo. Jejuns públicos e coletivos não devem ser marcados sem nenhum propósito. Nesse ponto, a Confissão de Fé de Westminster é clara:
A leitura das Escrituras, com santo e piedoso temor; a sã pregação e o consciencioso ouvir da Palavra, em obediência a Deus, com entendimento, fé e reverência; o cântico de salmos com graça no coração; e bem assim a devida administração e o digno recebimento dos sacramentos instituídos por Cristo – são todos partes do culto religioso ordinário oferecido a Deus, além dos juramentos e votos, jejuns solenes e ações de graças em ocasiões especiais, que devem, em seus diversos tempos e estações, ser usados de uma forma santa e religiosa.[xxxvi]

A conclusão à qual nós podemos chegar é que, a Escritura promove sim a prática do jejum, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. A grande pergunta à qual nos voltamos agora é a seguinte: COMO JEJUAR? O que devemos fazer e o que devemos evitar na prática cristã do jejum? Voltemos agora ao nosso texto inicial: Mateus 6.16-18.



[i] CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA: Edição revisada de acordo com o texto oficial em Latim, (São Paulo: Loyola, 2002), 384.
[ii] Ibid, 395,396.
[iii] Ibid, 537.
[iv] Isso porque o erro combatido pelo apóstolo Paulo, em 1 Timóteo 4.3, era uma forma embrionária de Gnosticismo, que adotava o dualismo persa. Tal forma de gnosticismo é denominada por Hendriksen como “gnosticismo asceta”. Cf. William Hendriksen, Comentário do Novo Testamento: 1 Timóteo, 2 Timóteo e Tito, (São Paulo: Cultura Cristã, 2001), 184. Calvino relaciona alguns grupos heréticos, como por exemplo, os encratistas, cujo nome é derivado do grego “continência”, os tacianistas, os cataristas, Montano e finalmente os maniqueus, “que sentiam extrema aversão por carne como alimento e pelo matrimônio, e condenavam ambos como sendo profanos”. Cf. João Calvino, Comentário à Sagrada Escritura: As Pastorais, (São Paulo: Paracletos, 1998), 109.
[v] Encaixa-se aqui o grande herege Charles Finney. Ele usava o jejum como uma forma de garantir o recebimento de poder do alto. Sempre que percebia que o poder divino o abandonava, ele separava um dia para jejum e oração, de maneira que o poder era, então, renovado. Eis o seu testemunho: “Eu saía e fazia visitas e achava que não tinha causado nenhuma impressão salvadora. Eu exortava e orava com o mesmo resultado. Eu então separava um dia para jejum e oração em particular, temendo que esse poder me abandonasse, e inquiria ansiosamente qual era a razão dessa aparente vacuidade. Depois de me humilhar e chorar por socorro, o poder retornava sobre mim com todo o seu frescor. Essa tem sido a experiência da minha vida”. Citado em John Piper, Fome por Deus, (São Paulo: Cultura Cristã, 2006), 109.
[vi] D. Martyn Lloyd-Jones, Estudos no Sermão do Monte, (São José dos Campos: Fiel, 1999), 327.
[vii] Luciano Subirá, Compreendendo o Jejum Biblicamente, 3. Artigo eletrônico.
[viii] D. Martyn Lloyd-Jones, Estudos no Sermão do Monte, 322.
[ix] Citado em John Piper, Fome por Deus, 13.
[x] Richard Foster, Celebração da Disciplina, (São Paulo: Vida, 2007), 83.
[xi] Ibid, 84.
[xii] Deve ser observado que Jesus jejuou por quarenta dias, quando da ocasião da sua tentação no deserto. No entanto, ele e seus discípulos foram criticados por não jejuarem (Mateus 9.14,15; Marcos 2.18,19; Lucas 5.33-35), como observa J. P. Lewis in Merrill C. Tenney (Org.), Enciclopédia da Bíblia Cultura Cristã, Vol. 3, (São Paulo: Cultura Cristã, 2008), 399. Isso parece ser um claro indicativo de que, para Jesus, embora o jejum seja esperado dos cristãos, ele não deve se constituir numa norma fixa, mas sim algo feito com extrema liberdade.
[xiii] Nas suas famosas Confissões, Santo Agostinho fala um pouco sobre a sua prática do jejum ao contrapô-la com o desejo por comer e beber: “Mas por ora esta necessidade me é grata, e luto contra essa delícia, para que não me domine; é uma guerra cotidiana que sustento com jejum, reduzindo meu corpo à escravidão”. Cf. Santo Agostinho, Confissões, (São Paulo: Martin Claret, 2002), 238.
[xiv] John Piper cita um sermão pregado pelo Reformador alemão, baseado em Mateus 4.1, em 1524: “A respeito do jejum eu digo o seguinte: é correto jejuar frequentemente a fim de subjugar e controlar o corpo […] Mas a pessoa não deve jejuar com vistas a merecer alguma coisa por isso como por boas obras”. John Piper, Fome por Deus, 199.
[xv] Na edição de 1541 das Institutas, Calvino entende que o jejum é uma prática associada ao arrependimento. Ele escreve o seguinte sobre a aplicação atual do jejum: “Os pastores atuais não fariam mal se, toda vez que vissem aproximar-se alguma calamidade, de guerra, de fome ou peste, fizessem ver a seu povo que seria bom orar ao Senhor com choro e jejum; desde que se fixassem no principal, que é quebrantar ou romper os corações e não a roupa. Pois é certo que nem sempre o jejum vem com o arrependimento, mas essa prática convém particularmente aos que querem declarar que reconhecem que merecem a ira de Deus e, contudo, pedem o seu perdão por sua clemência”. Cf. João Calvino, As Institutas: Edição especial com notas para estudo e pesquisa, Vol. 2, V.10, (São Paulo: Cultura Cristã, 2006), 136. Na edição de 1559, Calvino dedica um longo trecho à consideração acerca da prática do jejum. Eis um trecho: “Em suma, pode-se admitir assim: sempre que surgem controvérsias acerca da religião, a qual precisa ser decidida ou em um sínodo ou em um tribunal eclesiástico, sempre que se trata de eleger um ministro, enfim, sempre que se discute alguma coisa difícil e de grande importância; por outro lado, quando aparecem os juízos da ira do Senhor, como pestilência, guerra e fome, esta é uma santa e salutar ordenança em todos os séculos: que os pastores exortem o povo ao jejum público e orações extraordinárias”. Cf. João Calvino, As Institutas ou Tratado da Religião Cristã, Livro 4, XII, 14, (São Paulo: Cultura Cristã, 2003), 234. Edição eletrônica.
[xvi] John Wesley, num sermão intitulado Causes of Inefficacy of Christianity, disse uma frase que se tornou famosa: “O homem que nunca jejua não está em situação diferente, com relação à sua jornada para o céu, do homem que nunca ora”. Citado em John Piper, Fome por Deus, 205.
[xvii] Jonathan Edwards era incisivo quanto ao jejum ser praticado por ministros do Evangelho. Ele escreveu o seguinte em Thoughts on the Revival of Religion in New England: “Nós que somos ministros, não só temos necessidade de um pouco da verdadeira experiência da influência salvífica do Espírito de Deus em nossos corações, mas nós necessitamos de uma porção dobrada em um tempo como este. Precisamos ser cheios de luz como um vidro colocado sob o sol; e, com respeito ao amor e zelo, precisamos ser como os anjos que são chamas de fogo. O estado dos tempos requer uma plenitude do Espírito divino nos ministros, e não deveríamos dar a nós mesmos nenhum descanso até que obtivéssemos isso. E, para fazer isto, eu penso que os ministros, acima de todas as pessoas, deveriam estar muito mais em oração e jejum, em secreto e uns com os outros. Parece-me que seria favorável às atuais circunstâncias, que os ministros de uma vizinhança se encontrassem frequentemente, e gastando dias em jejuns e oração fervorosa entre eles, buscando suprimentos extraordinários da graça divina dos céus”. Cf. Jonathan Edwards, The Works of Jonathan Edwards, Vol. 1, (Grand Rapids, MI: Christian Classics Ethereal Library, 2002), 1458,1459. Extraído do site http://www.ccel.org/ccel/edwards/works1.html. Minha tradução.
[xviii] Existem alguns registros no diário de David Brainerd que mostram como era constante a sua prática do jejum. No dia 30 de junho de 1742 ele escreveu: “Passei o dia sozinho no bosque, em jejum e oração; experimentei os mais temíveis conflitos de alma”. Em 20 de abril de 1743, Brainerd escreveu: “Separei este dia para jejum e oração, inclinando minha alma diante de Deus com o fim de receber mais de sua graça, sobretudo para que toda a minha aflição espiritual e inquietude interior fossem santificadas para a minha alma”. No dia 10 de novembro do mesmo ano temos mais um registro: “Passei este dia sozinho, em jejum e oração”. Cf. Jonathan Edwards, A Vida de David Brainerd entre os Índios, (São José dos Campos: Fiel, 2005), 34,50,60.
[xix] Eis o testemunho de Spurgeon: “Os nossos períodos de jejum e oração no Tabernáculo têm sido realmente dias sublimes; nunca o portão dos céus estivera tão largamente aberto; nunca os nossos corações estiveram tão perto da glória celestial”. Citado em Edward McKendree. Bounds, Poder Através da Oração, (São Paulo: Batista Regular, s/d), 12. Edição eletrônica extraída do site http://www.monergismo.com.
[xxiv] Dallas Willard, O Espírito das Disciplinas, (Rio de Janeiro: Danprewan, 2003), 189.
[xxv] Richard Foster, Celebração da Disciplina, 85.
[xxvi] John Piper, Fome por Deus, 18.
[xxvii] D. Martyn Lloyd-Jones, Estudos no Sermão do Monte, 325.
[xxviii] John Piper, Fome por Deus, 19.
[xxix] J. P. Lewis in Merrill C. Tenney (Org.), Enciclopédia da Bíblia Cultura Cristã, 396.
[xxx] Raymond C. Ortlund Jr., Isaías: Deus Salva Pecadores, (Rio de Janeiro: CPAD, 2009), 487.
[xxxi] John Piper, Fome por Deus, 9.
[xxxii] Paulo ainda afirma o seguinte sobre a sua prática de jejum: “Pelo contrário, em tudo recomendamo-nos a nós mesmos como ministros de Deus: na muita paciência, nas aflições, nas privações, nas angústias, nos açoites, nas prisões, nos tumultos, nos trabalhos, nas vigílias, nos jejuns” (2 Coríntios 6.4,5); “em trabalhos e fadigas, em vigílias, muitas vezes; em fome e sede, em jejuns, muitas vezes; em frio e nudez” (2 Coríntios 11.27). Esta última referência, possivelmente, se trate de algo não religioso, mas sim de caráter circunstancial, devido aos sofrimentos impostos sobre Paulo.
[xxxiii] Richard Foster, Celebração da Disciplina, 90.
[xxxiv] John Piper, Fome por Deus, 91.
[xxxv] Ibid, 93.
[xxxvi] A. A. Hodge, Confissão de Fé Westminster Comentada por A. A. Hodge, (São Paulo: Os Puritanos, 1999), 377
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Luciano Ferrari
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O fim do calendário maia

Posted by Alex Belmonte in APOLOGÉTICA


Nada é tão prejudicial ao estudo da profecia neotestamentária do que imaginar que o Deus Eterno, que está separado e acima do tempo, está limitado pelos relógios e calendários dos homens.”. Edward M. Blaiklock

Há alguns anos que estudiosos religiosos e sensacionalistas em todo o mundo se voltam para a contagem do tempo por meio do calendário maia. As notícias acerca do fim do mundo que já estavam em evidência nos meios de comunicação, agora possuem data “certa” para a conclusão “profética’” acerca da destruição do planeta: 21 de dezembro de 2012.
Mas afinal o que é esse calendário maia? O que realmente se prevê por meio de sua descrição considerada de cunho profético? O que a Bíblia diz acerca do fim dos tempos, realmente está ligado á profecia maia como crêem alguns esotéricos? É o que pretendo abordar com coerência e conhecimento no assunto proposto.
Primeiro devo lembrar que encontro nos estudos do calendário maia muitas divergências entre os chamados especialistas do assunto, além de conclusões complexas e abstratas quanto a todo esse emaranhado de informações. Também sabemos da impossibilidade de esgotamento da questão por esse artigo, por ser amplo e longo a sua abordagem, mas oferecemos essa contribuição com a intenção de que se torne possivelmente a raiz para análises dos cristãos e demais leitores.
O Calendário e a História Maia – O calendário maia na verdade é um sistema de calendários distintos, que foram usados pela civilização maia da mesoamérica, ou América média e pré-colombiana. A região fica entre o México e a América do Sul e era também o lar de outras culturas, entre elas a dos astecas. Os maias viveram onde hoje está a Guatemala, Belize, Honduras, El Salvador e o sul do México. Alguns historiadores afirmam que a história maia é dividida em três períodos: A formativa ou Pré-clássica: de 2.000 a.C. até 300 d.C; O período clássico: de 300 d.C. até 900 d.C e; o pós-clássico: de 900 d.C. até a Inquisição espanhola em meados de 1.400. Mas outros, é claro, situam a história maia bem num período anterior.
É obvio que os maias não foram os primeiros a usarem um calendário. Existiram calendários antigos usados por civilizações do mundo todo – mas eles realmente inventaram quatro calendários diferentes. Dependendo de suas necessidades, usavam diferentes calendários para registrar cada evento, sejam sozinhos ou numa combinação de dois calendários. O calendário mais expressivo é justamente esse que relataremos.
O Calendário e o Tempo – O Calendário maia é organizado em unidades temporais crescentes. Cada vinte dias completam o que corresponderia a um mês, ou seja, entre os nativos, é conhecido por uinal. Dezoito uinals constituem um tun ou o “ano” ocidental. Por sua vez, vinte tuns formam um katun, enquanto quatrocentos tuns configuram o baktun. Esses são os nomes usados para identificar meses e períodos.
O processo de enumeração ocidental dos séculos é infinito, mas o calendário maia foi criado com uma duração limitada prescrita, 5.200 anos. Assim, ele teria seu fim em 13.0.0.0.0, transcrita por maioria dos pesquisadores como a data exata de nossa era: 21 de dezembro de 2012.
Junto a essa contagem de tempo os maias deixaram também um total de sete profecias relacionadas ao planeta e a evolução espiritual da humanidade. Esse é ponto central de toda a agitação em torno do calendário: sua ligação com eventos previstos para o decorrer da história. As profecias de fato existem, mas algumas delas, pelo visto, não se cumprirão de forma literal como pregam alguns e principalmente a mídia especulativa, mas trata-se de algo na ordem espiritual e interior, que nós aqui chamamos de movimento astrológico da Nova Era ou ciclo Aquariano.
Dessa forma consideramos que o final do calendário maia, possivelmente em 2012, seja uma ideia do início de um novo ciclo, assim como o último dia do ano ocidental dá lugar ao começo de um novo ano. O imaginário é mais forte do que qualquer técnica adotada pelas sociedades mesoamericanas. E assim, ouviremos, após esse dia 21 de dezembro de 2012, diversas autoridades das religiões de mistérios dizerem que, esse calendário acaba, mas com o reinício de uma nova fase de consciência global por parte da humanidade.
As profecias Maia e as Profecias Bíblicas – Os principais estudiosos desse assunto tentam com seu alto bulício interligar as profecias maia com a Bíblia Sagrada, o que é totalmente inútil, visto que a Bíblia não possui erros e falhas em sua Inspiração, como encontramos nos relatos maia  – é certo que erros de Tradução são comuns na Bíblia.
O que a Bíblia diz acerca do fim dos tempos, ou como alguns que querem impor usando o termo “mudança de ciclo”, se resumem em três eventos: 1º. Um Governo terreno de uma Nova Ordem Espiritual que se caracteriza por doutrinas contrárias a própria Bíblia (2ª Ts. 2; 2ª Pe. 2; Ap.13). Trata-se de um mundo distante do Deus Verdadeiro, pela criação de uma divindade genérica com a força do sincretismo religioso atuante em nossos dias; 2º. A busca incansável do homem por sua própria divinização e auto-salvação. Isso resulta na anulação do sacrifício de Jesus na cruz, ou seja, se o ser humano consegue a salvação por si próprio, por que razão Jesus morreu no calvário? (Rm. 6.23; 1ª Tm. 2.5; At. 4.12) e; 3º. A volta de Cristo para buscar seu povo, sua Igreja (1ª Ts. 4.16; 1ª Co. 15.52). Sendo assim, não existe na Bíblia nada que aprove ou se iguale ás profecias maia, ou de seus intérpretes, pelo contrário, a Palavra de Deus condena as práticas desses povos antigos, entre essas a de adivinhações que têm como objetivo tentar desvendar o futuro, usando como ferramenta, a consulta aos astros:
“Que não levantes os teus olhos aos céus e vejas o sol, e a lua, e as estrelas, todo o exército dos céus; e sejas impelido a que te inclines perante eles, e sirvas àqueles que o SENHOR teu Deus repartiu a todos os povos debaixo de todos os céus”. Deuteronômio 4.19. “Pois mudaram a verdade de Deus em mentira, e honraram e serviram mais a criatura do que o Criador, que é bendito eternamente. Amém.” Romanos 1.25
O calendário maia foi criado numa cultura extremamente mística e espiritualista. Os maias foram influenciados religiosamente pelos povos olmecas, povo considerado civilização-mãe de todas as civilizações mesoamericanas, cuja difusão principal foi uma concepção de mundo onde a contagem cíclica do tempo era interligada a espiritualidade do homem. A observância do movimento dos astros e dos fenômenos climáticos trazia ao pensamento religioso maia uma noção de que os fenômenos eram marcados por uma repetição. Nessa esfera religiosa os rituais também eram de suma importância, pois fortaleciam as ações dos deuses na preservação da existência do mundo espiritual. Nesses rituais religiosos os maias ofereciam sacrifícios humanos e animal. E Deus também condenou tal prática, de sacrifício humano, quando disse:
E edificaram os altos de Baal, que estão no Vale do Filho de Hinom, para fazerem passar seus filhos e suas filhas pelo fogo a Moloque; o que nunca lhes ordenei, nem veio ao meu coração, que fizessem tal abominação, para fazerem pecar a Judá.”
Enfim, as descrições do calendário maia, junto com a interpretação de seus simpatizantes, nada mais são que a volta ás tradições antigas de povos primitivos adoradores da natureza, supersticiosos, consultores dos astros e espiritualistas dos costumes astrológicos, com o fim de encarapitar e promover as doutrinas já condenadas por Deus e rejeitadas pelos princípios cristãos. O fim de um calendário para a suposta comprovação de um novo ciclo revela sua fragilidade, restando assim apenas o poder da comunicação favorável àqueles que possuem olhos vendados para a libertação de um julgo carregado há séculos.

 

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Luciano Ferrari
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No ar, os vídeos do Congresso de Teologia do Mackenzie com Nancy Pearcey

de Augustus Nicodemus Lopes

Agora já estão disponíveis os vídeos do Congresso de Teologia no Mackenzie com a Dra. Nancy Pearcey e város outros palestrantes. Os vídeos podem ser assistidos no site do Mackenzie ou baixados.

Clique aqui.

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Luciano Ferrari
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As Olimpíadas e a Igreja Perseguida

“Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé. Agora, me está reservada a coroa da justiça, que o Senhor, justo Juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amam a sua vinda.”  2 Timóteo 4:7-8

No ultimo dia 27 de julho deu-se inicio à 30ª edição dos Jogos Olímpicos Modernos. Mais antigo evento esportivo do mundo, os Jogos foram criados na Antiguidade, em Olímpia, na Grécia, e praticados pelas cidades-estado gregas do século 8 a.C ao 5 d.C.
Além de uma importância religiosa na Antiguidade, os jogos serviam como ferramenta “diplomática” para manter a paz e a harmonia entre as cidades-estado. A corrida e a luta corporal eram duas das principais modalidades dos Jogos e, ao invés da atual medalha, os vencedores recebiam como premiação uma coroa de louros.
Os Jogos voltaram a ser praticados em 1896, em Atenas, Grécia. Hoje, as Olimpíadas reúnem atletas de mais de 200 países que competem nas diversas modalidades esportivas. Nos Jogos Olímpicos Modernos é possível notar a convivência pacífica de indivíduos de diferentes nações, línguas e credos, competindo lado a lado pelo melhor lugar no pódio e pela tão sonhada e desejada medalha de ouro.
Numa Olimpíada existem pelo menos três personagens importantes, são eles: Os atletas (e sua equipe ou comissão técnica), a plateia, e os juízes. Os principais destes são os atletas e sua equipe que, com seus esforços físicos e estratégias farão daquele evento, um verdadeiro espetáculo. O público tem uma função mais discreta, mas não menos importante, que é a de torcer, incentivar e motivar os atletas. Por fim, os juízes são aqueles que determinarão dentro das regras de cada modalidade, se o desempenho do atleta é digno da coroa de louros (ou da medalha de ouro, prata e bronze).
No versículo de 2 Timóteo descrito acima, o apostólo Paulo faz uma alusão aos Jogos Olímpicos antigos. Ele nos explicar que a vida cristã não é diferente, mas exige-se sacrifício e dedicação. Creio que a perseverança é a palavra que mais se encaixa nesses versículos. Para ser campeão é preciso perseverar, não desistir, ainda que tenhamos que competir contra Michael Phelps ou Usain Bolt. Isso tem tudo a ver com a Igreja de Cristo, tanto a que é livre quanto a que sofre perseguição por causa da fé.
Todos os países da Classificação de países por perseguição da Portas Abertas estão participando dos Jogos de Londres 2012. Nesses lugares há milhares de cristãos que correm e lutam todos os dias para guardar a fé em meio a sistemas opressores.
Pois farei também uma breve alusão: Os atletas são os nossos irmãos da Igreja Perseguida, o Juiz (justo Juiz) é o nosso Deus e a plateia somos nós, cristãos da Igreja Livre. Ora, se a função dos cristãos perseguidos (atletas) é competir (perseverar) e a de Deus é julgar e dar a recompensa, então, qual é a nossa função enquanto Igreja Livre? A resposta mais óbvia a esta pergunta é: Orar, incentivar e motivar esses irmãos o tempo todo.
Enquanto nossos irmãos competem para guardar a fé e manter viva a chama da esperança de receber a coroa (medalha) das mãos do justo Juiz, há uma enorme plateia de espectadores (eu e você) que precisa fazer algo para ajudá-los nesse propósito.
Não deixe de orar hoje pelos cristãos da Igreja Perseguida e de pedir a Deus que lhes dê forças para combater o bom combate e completar a corrida!
Marcelo Peixoto- Historiador Portas Abertas Brasil
Foto: Agencia Reuters

FontePortas Abertas
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Luciano Ferrari
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Thiago ensinou unção com óleo?

de Ruy B. Marinho

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“Está alguém entre vós doente? Chame os presbíteros da igreja, e estes façam oração sobre ele, ungindo-o com óleo, em nome do Senhor.”(Tg 5.14).

Nos tempos antigos, o azeite de oliva era usado com frequência na medicina (Marcos 6.13; Lucas 10.34). Isaías lamentava a situação do povo de Deus que ele descreveu empregando a figura de uma pessoa machucada cujas feridas não foram “amolecidas com óleo” (1.6).

Tiago não tinha em mente mágica nenhuma, quando mencionou o uso do óleo. Muito menos se estava referindo ao sacramento católico de extrema-unção ou a práticas de alguns evangélicos. Tiago não escreveu sobre nenhum tipo de unção cerimonial. A palavra grega “ungir” (aleípho), empregada por Tiago, não indica unção cerimonial. A palavra comumente usada para cerimonial era “chrio”(cognata de christós, “ungido”- Cristo, o “Ungido”). A palavra “aleípho” era usada para descrever a aplicação pessoal de unguentos, loções e perfumes que em geral tinham uma base de óleo – o termo relaciona-se com lipos, “gordura”. Era empregado significando até argamassa para paredes. O vocábulo cognato exaleípho intensifica o conceito de esfregar ou aplicar óleo e dá a idéia de untar, apagar, enxugar, raspar, etc.  Aleíptes era o “treinador” que massageava os atletas numa escola de ginástica. Em português: alipta. O termo aleípho ocorria muitas vezes nos tratados de medicina. Assim é que vem à tona que o que Tiago pretendia com o uso do óleo era o emprego dos melhores recursos médicos daquele tempo. Tiago simplesmente disse que se aplicasse óleo (frequentemente usado como base de misturas de várias ervas medicinais) no corpo e que se fizesse oração.

O que o escritor bíblico defendia era o emprego da medicina aceita e consagrada. Nessa passagem ele apregoou que as doenças fossem tratadas com recursos médicos acompanhados de oração. Ambos os elementos devem ser usados juntos; nenhum deles deve excluir o outro. Portanto, ao invés de ensinar a cura pela fé, independente do uso de medicamentos, a passagem ensina justamente o contrário. Mas quando se usam medicamentos, estes devem ser usados conjuntamente com a oração. Aí está a razão por que Tiago disse que a oração da fé cura o doente. Os líderes (Presbíteros – ou pastores) da igreja deveriam tomar providência, talvez por estes feridos estarem envolvidos na obra da igreja.

O fato de Deus poder curar e algumas vezes mesmo sem o emprego de meios, não nos deve pensar que recorrer à medicina é desonrá-lO. O  não-crente usa a medicina sem oração; o crente pode usar a oração com a medicina, contudo ambos, afinal, dependerão de Deus.


Por: Rev. Ronaldo P Mendes
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Casos de mulheres cristãs sequestradas e forçadas a casar com muçulmanos tem aumentado, apontam missionários

Casos de mulheres cristãs sequestradas e forçadas a casar com muçulmanos tem aumentado, apontam missionários
por Tiago Chagas

Desde o início da Primavera Árabe, movimento social que protesta contra governantes de países árabes, aumentou o número de mulheres cristãs que são sequestradas e convertidas à força ao islamismo para se casar com muçulmanos.
Um relatório divulgado pelo Barnabas Fund, escrito pela missionária egípcia e ativista de direitos humanos, Nadia Ghaly, em parceria com a professora Michele Clark, da George Washington University, apresenta casos de perseguição a mulheres cristãs.
Segundo o relatório, a comunidade cristã “tornou-se mais vulnerável à perseguição (por conta do aumento da militância islâmica após a derrubada do presidente Hosni Mubarak), com as mulheres, em particular, sendo as mais prejudicadas”. A informação foi traduzida e divulgada pela missão Portas Abertas.
O relatório foi intitulado “Diga à Minha Mãe que Sinto Saudades Dela”, numa citação à uma frase dita por uma das jovens sequestradas e forçadas a se casar. No dia 20/05/2011 a moça de 19 anos desapareceu, e no mesmo dia, a polícia avisou a família que ela havia se casado com um muçulmano.
O pai da jovem relatou que recebeu uma ligação dela aos prantos, falando baixo, um mês depois do acontecido. Na conversa, a jovem pede que avise sua mãe da falta que sente dela, porém ela é surpreendida por alguém que entra na sala e a ligação é interrompida. Quando seu pai retorna a ligação, um homem atende e avisa: “Ela está inconsciente agora, mas deixe-me dizer uma coisa, essa menina é mais importante para mim do que qualquer outra coisa. Juro por Deus, se algo acontecer com ela, eu vou matar todos vocês e eu vou queimar a igreja. Você sabe que eu posso fazer isso”.
Outras oito ligações foram feitas pela jovem a seu pai, que chegou sugerir que ela se cortasse na esperança de que, ao ser levada a um hospital, seus familiares fizessem o resgate. Porém, o sequestrador levou um médico ao cativeiro, prevenindo a fuga.
O advogado Stefanos Milad, especializado em direitos humanos, apresentou o caso da jovem e outros treze ao Ministério Egípcio do Interior, em setembro de 2011. No documento, o advogado pedia investigações, porém as autoridades ainda não responderam sua solicitação. Outros quatro advogados relataram aproximadamente 550 casos em que famílias pedem a restauração da identidade cristã, que foi prejudicada por sequestros, casamentos e conversões ao islamismo forçados.

Fonte: Gospel+

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A Melhora da Morte

de Carlos Moreira

André Pessoa


                
No início desta semana jornais de grande circulação, revistas e sites especializados divulgaram com grande alarde as mais recentes pesquisas do IBGE que mostram o crescimento bombástico dos evangélicos no Brasil. Nos últimos dez anos o número de evangélicos cresceu mais de 60% e deve ultrapassar o número de católicos nos próximos 20 anos.

                Os evangélicos passaram de 26 000 000 para 42 000 000 em uma década apesar da óbvia retração das igrejas ditas tradicionais como batista, presbiteriana, congregacional  e outras que, no que diz respeito a certos princípios, se dizem filhas da Reforma Protestante.  Crescimento sem precedentes? Talvez. Garantia de alguma coisa? Em hipótese alguma!

                Embora os números não mintam (isso é meio esotérico não acham?), as generalizações das quais fazem uso os pesquisadores para chegar as suas conclusões fincadas no solo da indução, em muitos casos são equivocadas. No que tange ao crescimento da igreja evangélica por exemplo, estamos diante de um desses equívocos que produzem festa e abertura de champagne mas depois se transformam em amargas  desilusões.

                Uma coisa que os números do IBGE não conseguem captar é que o crescimento evangélico é meramente nominal e sem raízes uma vez que o grande responsável por ele é o neopentecostalismo cujas igrejas que hoje abrem um salão de culto em um galpão qualquer, amanhã, sem aviso prévio, são substituídas por um frigorífico, uma granja de galinhas ou um bar. A não permanência é a expressão da fé da qual estamos alardeando o crescimento!

                O que está aparecendo nas pesquisas do IBGE são números relativos a uma multidão flutuante que hoje está aqui e amanhã acolá, que hoje é crente e amanhã pertence a lugar nenhum, que hoje usa sai longa e amanhã fio dental. O tipo evangélico que tem sido descrito com estereótipo de herói-desbravador da fé representa na verdade um tipo confuso e superficial que está a um passo do ceticismo.

                A igreja evangélica não está crescendo nem no Brasil e nem em lugar algum do planeta porque ela, tal e qual as demais instituições conservadoras que marcaram o século passado, estão dando os primeiros passos na direção do declínio nesse início de século XXI. O zeitgeist é um rolo compressor que atropela tudo, inclusive o cristianismo brasileiro já tão massacrado pelos próprios evangélicos.

                O fenômeno em processo na igreja evangélica brasileira e que já aconteceu com a igreja cristã em outras partes do mundo e em outras épocas é o que o senso comum convencionou chamar em tom vulgar de “melhora da morte”. Trata-se de um fenômeno comum nos hospitais: o doente acorda, pede comida, caminha no corredor com a ajuda da enfermeira para logo em seguida morrer.

                A igreja evangélica brasileira não está crescendo mas se rarefazendo, se tornando sutil, pouco palpável, se sublimando até desaparecer na forma como hoje existe. O que estamos presenciando agora e que alguns chamam de crescimento evangélico nada mais é do que a colocação dos marcos que sinalizam o fim de um momento na história da igreja brasileira e o começo de outro que ainda está se desenhando.

                De agora em diante serão construídos novos paradigmas, uma nova cosmovisão, uma nova forma de comunicar e um novo modelo hermenêutico que em nada se parecerá com o antigo que fincou as suas raízes no Brasil com a chegada dos primeiros missionários no século XIX. Daqui a mais alguns anos os novos homens da religião brasileira e mundial  terão que construir mais um sistema de pensamento do que constituir igrejas.

                O herói evangélico brasileiro pintado por alguns veículos de comunicação que mostram os evangélicos como desbravadores ao estilo RONDOM viajando de barco longas distâncias para assistir a um culto em uma igreja simples plantada no coração da floresta é uma quimera. Nada mais frágil do que a fé evangélica dos nossos dias (desculpe-me o tom fundamentalista); não passa de “casa construída na areia”!

                Os cristãos, como bem observou Peter Berger, sempre foram e sempre serão “minoria cognita”, os entusiastas, porém, sempre foram e sempre serão maioria no Brasil, nos EUA, na Europa, na Coréia de Paul Young Cho ou em qualquer outro lugar. Os números do IBGE falam de um fenômeno de “rarefação da fé”, diluição dos limites, fantasmização do cristianismo, apesar dos fogos de artifícios de Malafaia e Cia.

 Fonte: Genizah

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Pesquisa aponta que igrejas históricas no Brasil sofrem retração, enquanto as neopentecostais crescem

Pesquisa aponta que igrejas históricas no Brasil sofrem retração, enquanto as neopentecostais crescem

Por Dan Martins

O crescimento do número de evangélicos no Brasil, apontado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), teve um grande destaque em todos os meios de comunicação nas últimas semanas. Dentro desse crescimento, uma pesquisa aponta que as igrejas protestantes históricas ou “igrejas evangélicas de missão” estão em retração, enquanto as igrejas de origem pentecostal se expandem.
A pesquisa foi realizada pelo Bureau de Pesquisa e Estatística Cristã (BEPEC) que analisou os microdados referentes às religiões do Censo demográfico 2010 liberado recentemente pelo IBGE.
De acordo com o estudo, muitas das “igrejas evangélicas de missão” apresentaram uma redução de 10,76% em seu número de fiéis no período analisado (2000 a 2010), entre essas igrejas pode-se destacar a igreja congregacional com diminuição de 26,37%, a Luterana com – 5,9%, a presbiteriana com – 6,10% e metodista com – 0,01%. Apenas algumas das igrejas consideradas históricas apresentaram crescimento no período, como as igrejas batistas com 17,74% e adventistas, com 29,03%.
Em contrapartida as igrejas de origem pentecostal mostraram um crescimento considerável no período, representando a maior parte do crescimento de evangélicos observado pelo IBGE. Com um crescimento total de 44,01% entre as pentecostais, a igreja com maior crescimento foi a igreja Assembleia de Deus com 46,28%, em seguida a Igreja Evangelho Quadrangular com 37,12%, e depois a Igreja Universal do Reino de Deus com 28,37%.
Porém, o diretor do BEPEC, Danilo Fernandes, afirma que apesar dos dados existe a possibilidade que a tendência de retração das igrejas históricas no Brasil sofra uma reversão, devido ao crescente interesse da nova geração de protestantes históricos no aprimoramento do conhecimento teológico e pela produção literária.
De acordo com o The Christian Post, ele destaca também que dissenções e escândalos constantemente apontados nas grandes denominações pentecostais podem fazer com que comece uma tendência de retração nessas igrejas.
– A rota de muitos decepcionados com a igreja, os órfãos das promessas não cumpridas, é a ortodoxia. Esta não é a estrada mais ampla, mas é uma artéria importante, de formadores de opinião – afirmou ele.
– O crescimento deste grupo têm alimentado nos últimos anos as igrejas tradicionais que sofreram sangrias na primeira metade do último decênio. Eu creio em um retorno – conclui.

Redação Gospel+

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Luciano Ferrari
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